Em 1974, convalescendo de uma terceira cirurgia corretiva na mão esquerda, entusiasmado com a possibilidade de voltar a estudar as peças do mestre, fui ao Rio de Janeiro conhecer o Museu Villa-Lobos; quem sabe não voltava a São Paulo com um convite para um estágio na Universidade de Cascadura?
O convite não veio, mas em compensação levei um papo inesquecível com Dona Mindinha, mulher do mestre, a quem ele dedicou, entre outras dezenas de peças, os Cinco Prelúdios Para Violão e as Nove Bachianas Brasileiras.
Mindinha contou que, uma noite em Nova York, Villa lhe convidou para assitir a um grande compositor, esse sim, que iria se apresentar ao piano; o lugar, segundo ela era bem mixuruca e o músico, praticamente na miséria, era Béla Bartók.
Coincidentemente, Villa-Lobos e Bartók tinham ouvido absoluto; compunham sem usar nenhum intrumento, ou seja, tinham as notas musicais na cuca.
Perguntei a ela se conhecia Antonio Carlos Jobim.
- Sim , claro tem melodias lindas, ele ama a obra do Villa. Uma ocasião esteve em casa – bebia bem esse moço! – e brincava:
- Maestro, quer vender a ária da Bachiana Nº 5, quanto custa? E o Villa ria.
Depois de um cafezinho, Mindinha foi atender a uma pessoa e eu fiquei sozinho na sala cheia de pertences do maestro; batutas, piteiras, lápis, borrachas, óculos, partituras e a tentação de roubar um lápis do indio de casaca.
Mindinha voltou a tempo e contei-lhe meu desejo…
- Edgard, que coisa feia!
- Dona Mindinha, esse lapis está encantado, é o meu concerto!
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Mindinha me deu muitas partituras, entre elas a Melodia Sentimental, que, mais de vinte anos depois, mostrei à Zizi Possi que gravou no seu CD Mais Simples.
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