Archive for Fevereiro, 2016

Dia Internacional do Gato

quarta-feira, Fevereiro 17th, 2016

Hoje é dia 17 de fevereiro; dia internacional do gato.

GATO GATO GATO

 Otto Lara Resende

Familiar aos cacos de vidro inofensivos, o gato caminhava molengamente por cima do muro. O menino ia erguer-se, apanhar um graveto, respirar o hálito fresco do porão. Sua úmida penumbra. Mas a presença do gato. O gato, que parou indeciso, o rabo na pachorra de uma quase interrogação.

Luminoso sol a pino e o imenso céu azul, claro, sobre o quintal O menino pactuando com a mudez de tudo em torno – árvores, bichos, coisas. Captando o inarticulado segredo das coisas. Inventando um ser sozinho, na tontura de imaginações espontâneas, como um gás que desprende. Gato – leu no silêncio da própria boca. Na palavra não cabe o gato, toda a verdade de um gato, aquele ali, ocioso, lento, emoliente – em cima do muro. As coisas aceitam a incompreensão de um nome que não está cheio delas. Mas bicho, carece nomear direito: como rinoceronte, ou girafa se tivesse mais uma sílaba para caber o pescoço comprido. Girarafa, girafafa. Gatimonha, gatimanho. Falta um nome completo, felinoso e peludo, ronronante de astúcias adormecidas. O pisa-macio, as duas bandas de um gato. Pezinhos de um lado, pezinhos de outro, leve, bem de leve para não machucar o silêncio de feltro nas mãos enluvadas. O pelo do gato para alisar. Limpinho, o quente contato da mão no dorso, corcoveante e nodoso à carícia. O lânguido sono de morfinômano. O marzinho de leite no pires e a língua secreta, ágil, A ninhada de gatos, os trêmulos filhotes de olhos cerrados. O novelo, a bola de papel – o menino e o gato brincando. Gato lúdico. O gatorro, mais felino do que o cachorro é canino. Gato persa, gatochum – o espirro do gato de olhos orientais. Gato de botas, as aristocráticas pantufas do gato. A manha do gato, gatimanha: teve uma gata miolenta em segredo chamada Alemanha. Em cima do muro, o gato recebeu o aviso da presença do menino. Ondulou de mansinho alguns passos denunciados apenas na branda alavanca das ancas. Passos irreais, em cima do muro eriçado de cacos de vidro. E o menino songa-monga, quietinho, conspirando no quintal, acomodado como silêncio de todas as coisas. No se olharem, o menino suspendeu a respiração, ameaçando de asfixia tudo que em torno dele com ele respirava, num sistema pulmonar. O translúcido manto de calma sobre o claustro dos quintais. O coração do menino batendo baixinho. O gato olhando o menino vegetalmente nascendo do chão, como árvore desarmada e inofensiva. A insciência, a inocência dos vegetais. O ar de enfado, de sabe-tudo do gato: a linha da boca imperceptível, os bigodes pontudos, tensos por hábito. As orelhas acústicas. O rabo desmanchado, mas alerta como um leme. O pequeno focinho úmido embutido na cara séria e grave. A tona dos olhos reverberando como laguinhos ao sol. Nenhum movimento na estátua viva de um gato. Garras e presas remotas, antigas. Menino e gato ronronando em harmonia com a pudica intimidade do quintal. Muro, menino, cacos de vidro, gato, árvores, sol e céu azul: o milagre da comunicação perfeita. A comunhão dentro de um mesmo barco. O que existe aqui, agora, lado a lado, navegando. A confidência essencial prestes a exalar, e sempre adiada. E nunca. O gato, o menino, as coisas: a vida túmida e solidária. O teimoso segredo sem fala possível. Do muro ao menino, da pedra ao gato: como a árvore e a sombra da árvore. O gato olhou amarelo o menino. O susto de dois seres que se agridem só por se defenderem. Por existirem e, não sendo um, se esquivarem. Quatro olhos luminosos – e todas as coisas opacas por testemunha. O estúpido muro coroado de cacos de vidro. O menino sentado, tramando uma posição mais prática. O gato de pé, vigilantemente quadrúpede e, no equilíbrio atento, a centelha felina. Seu íntimo compromisso de astúcia. O menino desmanchou o desejo de qualquer gesto. Gaturufo, inventou o menino, numa traiçoeira tentativa de aliança e amizade. O gato, organizado para a fuga, indagava. Repelia. Interrogava o momento da ruptura – como um toque que desperta da hipnose. Deu três passos de veludo e parou, retesando as patas traseiras, as patas dianteiras na iminência de um bote – para onde? Um salto acrobático sobre um rato atávico, inexistente. Por um momento, foi como se o céu desabasse de seu azul: duas rolinhas desceram vertiginosas até o chão. Beliscaram levianas um grãozinho de nada e de novo cortaram o ar excitadas, para longe. O menino forcejando por nomear o gato, por decifrá-lo. O gato mais igual a todos os gatos do que a si mesmo. Impossível qualquer intercâmbio: gato e menino não cabem num só quintal. Um muro permanente entre o menino e o gato. Entre todos os seres emparedados, o muro. A divisa , o limite. O odioso mundo de fora do menino, indecifrável. Tudo que não é o menino, tudo que é inimigo. Nenhum rumor de asas, todas fechadas. Nenhum rumor. Ah, o estilingue distante – suspira o menino no seu mais oculto silêncio. E o gato consulta com a língua as presas esquecidas, mas afiadas. Todos os músculos a postos, eletrizados. As garras despertas unhando o muro entre dois abismos. O gato, o alvo: a pedrada passou assobiando pela crista do muro. O gato correu elástico e cauteloso, estacou um segundo e despencou-se do outro lado, sobre o quintal vizinho. Inatingível, às pedras e ao perigoso desafio de dois seres a se medirem, sumiu por baixo da parreira espapaçada ao sol. O tiro ao alvo sem alvo. A pedrada sem o gato. Como um soco no ar: a violência que não conclui, que se perde no vácuo. De cima do muro, o menino devassa o quintal vizinho. A obsedante presença de um gato ausente. Na imensa prisão do céu azul, flutuam distantes as manchas pretas dos urubus. O bailado das asas soltas ao sabor dos ventos das alturas. O menino pisou com o calcanhar a procissão de formigas atarantadas. Só então percebeu que lhe escorria do joelho esfolado um filete de sangue. Saiu manquitolando pelo portão, ganhou o patiozinho do fundo da casa. A sola dos pés nas pedras lisas e quentes. À passagem do menino, uma galinha sacudiu no ar parado a sua algazarra histérica. A casa sem aparente presença humana. Agarrou-se à janela, escalou o primeiro muro, o segundo, e alcançou o telhado. Andava descalço sobre o limo escorregadio das telhas escuras, retendo o enfadonho peso do corpo como quem segura a respiração. O refúgio debaixo da caixa d’água, a fresca acolhida da sombra. Na caixa, a água gorgolejante numa golfada de ar. Afastou o tijolo da coluna e enfiou a mão: bolas de gude, o canivete roubado, dois caramujos com as lesmas salgadas na véspera. O mistério. Pessoal, vedado aos outros: Uma pratinha azinhavrada, o ainda perfume da caixa de sabonete. A estampa de São José, lembrança da Primeira Comunhão. Apoiado nos cotovelos, o menino apanhou uma joaninha que se encolheu, hermética. A joaninha indevassável, na palma da mão. E o súbito silêncio da caixa d’água, farta, sua sede saciada. Do outro lado da cidade, partiram solenes quatro badaladas no relógio da Matriz. O menino olhou a esfera indiferente do céu azul, sem nuvens. O mundo é redondo, Deus é redondo, todo segredo é redondo. As casas escarrapachadas, dando-se as costas, os quintais se repetindo na modorra da mesma tarde sem data. Até que localizou embaixo, enrodilhado à sombra, junto do tanque: um gato. Dormindo, a cara escondida entre as patas, a cauda invisível. Amarelo, manchado de branco de um lado da cabeça: era um gato. Na sua mira. Em cima do muro ou dormindo, rajado ou amarelo, todos os gatos, hoje ou amanhã, são o mesmo gato. O gato-eterno. O menino apanhou o tijolo com que vedava a entrada do mistério. Lá embaixo – alvo fácil – o gato dormia inocente a sua sesta ociosa. Acertar pendularmente na cabeça mal adivinhada na pequena trouxa felina, arfante. Gato, gato, gato: lento bicho sonolento, a decifrar ou a acordar? A matar. O tijolo partiu certeiro e desmanchou com estrondo a tranqüila rodilha do gato As silenciosas patinhas enluvadas se descompassaram no susto, na surpresa do ataque gratuito, no estertor da morte. A morte inesperada. A elegância desfeita, o gato convulso contorcendo as patas, demolida a sua arquitetura. Os sete fôlegos vencidos pela brutal desarmonia da morte. A cabeça de súbito esmigalhada, suja de sangue e tijolo. As presas inúteis, à mostra na boca entreaberta. O gato fora do gato, somente o corpo do gato. A imobilidade sem a viva presença imóvel do sono. O gato sem o que nele é gato. A morte, que é a ausência de gato no gato. Gato – coisa entre as coisas. Gato a esquecer, talvez a enterrar. A apodrecer. O silêncio da tarde invariável. O intransponível muro entre o menino e tudo que não é o menino. A cidade, as casas, os quintais, a densa copa da mangueira de folhas avermelhadas. O inatingível céu azul. Em cima do muro, indiferente aos cacos de vidro, um gato – outro gato, o sempregato – transportava para a casa vizinha o tédio de um mundo impenetrável. O vento quente que desgrenhou o mormaço trouxe de longe, de outros quintais, o vitorioso canto de um galo.

O retrato na gaveta, 1962

Ágata, tomando aula de violão.

Ágata curiosa

Aula de música

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Beijinho

 

Diálogos com Ágata

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Somos Amigos, amigos do peito, amigos pra valer!

Pesquisando música

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Quem der uma volta no Parque do Ibirapuera, aqui em SP, entre 19 e 20 horas, inevitávelmente, vai encontrar o Lorenzo dando comida e carinho para os gatos que vivem no parque, contrariando a máxima o homem é o animal que não deu certo, ensinando o mundo  ser melhor. Pratinhos arrumados, um para cada felino – já são quase vinte!

Nas fotos abaixo, não aparece a turma toda, mas, dá para ter uma idéia  da cena singela que eu tenho o privilégio de assistir na minha corrida diária.

Hoje, com certeza, o gato eterno, o sempregato está te aplaudindo.

 

 

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Donald O’Connor • Genial.

terça-feira, Fevereiro 16th, 2016

Donald David Dixon Ronald O’Connor.  Nasceu em 28 de agosto de 1925, e está imortalizado nesta que é uma das cenas mais espetaculares da história do cinema!

Gênio!

 

 

O Carnaval • Por Noël Rosa.

sexta-feira, Fevereiro 5th, 2016

 

 

O carnaval

nada mais é

do que uma amostra, 

na Terra, 

de como será

o inferno no céu.

 

O Brasil • Por Noël Rosa

sexta-feira, Fevereiro 5th, 2016

Comparo o meu Brasil

A uma criança perdulária

Que anda sem vintem

Mas tem a mãe que é milionária.

O assobio

quarta-feira, Fevereiro 3rd, 2016

Há tempos reparo que cada vez menos se assobia, ou assovia. Na minha infância e adolescência, início dos anos cincoenta, o assobio era um instrumento apreciado e utilíssimo. Além de ser barato e de fácil transporte era, depois da voz, o que melhor expressava nosso humor, a melodia interna e se prestava para dezenas de utilidades.

Vi e ouvi grandes assobiadores se apresentando no rádio, na TV, em filmes, em LPs, solando esse instrumento de altíssimo custo benefício, afinal é de nascença.

O assobio, com certeza, nasceu antes da música, provavelmente para chamar alguem ou algum bicho, e se consagrou multimídia. Tem até  assobio mudo. De extrema utilidade quando entramos numa sala de espera cheia e sabemos que estamos sendo observados, assopramos aquele ventinho cheio de naturalidade. 0

Mas voltemos às músicas: aqui seguem tres que marcaram aqueles tempos:- The High and the Mighty, de Dimitri Tiomkin, do filme  Um Fio de Esperança (1954), estrelado por John Wayne e premiado com o Oscar de trilha sonora original.

Achava a música a mais triste do mundo, embora, para muitos significasse esperança. Belíssima melodia, até hoje soa uma vaga tristeza.

A gravação é de Victor Young e sua Orquestra.

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Just Walking In The Rain, de Johnny Bragg e Robert Riley estourou no Brasil, em 1956, na voz de Johnnie Ray. O sucesso foi tanto e o troxe ao Brasil. Assisti sua apresentação pela TV e fiquei muito impressionado de ver que ele usava um aparelho auditivo.

Essa música foi, por um bom tempo, o carro chefe do meu show imaginário cantada num ingles idem.

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Trinta anos depois escrevi essa letra em português – Quem não sabe assobiar – gravada pel’ A Turma do Balão Mágico.

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Quem não sabe assobiar

Eu posso ensinar

Preste atenção no que diz esta canção

 

Quem não sabe assobiar

É que nem comer

É que nem coçar

É só começar

 

Faz um bom biquinho

Aí, é só soprar

Mas não dê risada

Senão pode falhar

 

Quem não sabe assobiar

Pega esta canção

Faz que nem balão

Sopra, só pra ver voar

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– The Happy Whistler, tambem de 1956, assobiada por Don Robertson, só nos USA alcançou mais de um milhão de cópias vendidas.

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– Colonel Bogey March. Marcha escrita pelo tenente F.J.Ricketts (1881–1945), um militar britânico, maestro de banda diretor musical da Royal Marines em Plymouth, editada com o pseudônimo de Kenneth Alford e usada como tema principal do filme  A Ponte do Rio Kwai, de David Lean sobre a Segunda Guerra Mundial, produção espetacular, que conquistou o público e venceu sete Oscars em 1957, entre os quais os de Melhor Filme, Melhor Actor (Alec Guiness) e Melhor Realizador.

A Marcha do Coronel Bogey cantarolada nos tempos da Segunda Guerra Mundial transformou-se num êxito mundial.

Aqui uma gravação com a Boston Pops Orchestra regida por John Williams.

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e aqui um trecho do filme :

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Estava achando que o assobio estava banido na música, mas me enganei, leiam a matéria publicada pela revista Rolling Stone, no endereço abaixo:

http://rollingstone.uol.com.br/galeria/dez-assobios-mais-grudentos-da-musica

O assobio sobrevive na música e no nosso dia a dia, inclusive o sabiá que sabia assobiar.