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Mindinha de Villa-Lobos

terça-feira, março 5th, 2019

Em 1974, fui ao Rio de Janeiro, conhecer o Museu Villa-Lobos, no trem noturno, apelidado, por Vinicius de Moraes,”avião dos covardes”. Viajei a viagem toda, na possibilidade de, que sabe , arrumar um estágio na Universidade Musical de Cascadura.

Infelizmente não havia vaga nenhuma, mas, ouve um papo com dona Arminda, a Mindinha, mulher do Villa, a quem ele dedicou, entre muitas peças, os Cinco Prelúdios Para Violão e as Nove Bachianas Brasileiras. Seguem os três melhores momentos.

Dona Mindinha contou que numa ocasião em Nova York, Villa-Lobos a levou para ouvir um grande compositor- não disse quem nem onde – que ia se apresentar ao piano. O lugar, segundo ela era bem mixuruca, e o músico, numa pindaíba danada, era nada mais nada menos que Béla Bartók! Villa e Bartók tinham ouvido absoluto e compunham sem usar nenhum instrumento, ou seja, tudo de cuca.

Perguntei se ela conhecia Antonio Carlos Jobim. Eu sabia da admiração de Tom pela obra de Villa-Lobos. – Sim, claro que conheço, ele compõe melodias lindas, e ama a obra de Villa-Lobos. Uma ocasião, lá pelos anos 50, ele esteve em nossa casa. Lembro bem dele, brincando, ao se despedir : – Maestro, quer vender pra mim a ária da Bachiana Nº5? O Villa riu mais do que normalmente, ele gostava do Tom. Antônio Carlos Jobim estava começando sua monumental carreira de compositor, que o consagrou no mundo inteiro.

Após um cafezinho, dona Mindinha foi atender alguém, disse que voltava logo, e que eu a esperasse. Fiquei rodando pela sala olhando alguns pertences do maestro – batuta, piteira, vários lápis, borrachas, óculos, tentado a trazer, graciosamente, um lápis com prolongador que não parava de olhar pra mim. Bem, dona Mindinh a voltou a tempo de frustrar o assalto ao patrimônio nacional, e, cheio de graça, confessei minha intenção. – Edgard, mas que coisa feia! – Pois é, dona Mindinha, eu sei, mas acontece que lápis está encantado que nem o Guia Prático! Com ele na mão, até eu escrevo uma sinfonia!

Voltei com um bocado de partituras que ganhei de dona Arminda de Villa-Lobos, entre elas a, Melodia Sentimental, que vinte e dois anos depois, sugeri à Zizi Possi que a incluísse no repertório do CD Mais Simples. Na ânsia de ir ao Museu, me confundi, e, ao invés do Guia Prático – a caixinha de ferramentas do maestro – levei o Solfejos, que aí está, autografado por Mindinha Villa-Lobos