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Viva Antonio Carlos Jobim!

quinta-feira, janeiro 25th, 2018

Viva Tom Jobim!

25 de janeiro. Aniversário de São Paulo, e do maior compositor de música popular de todos os tempos! Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim!

Semibreves

• Wave

Era o tempo dos radinhos Spika, dos primeiros disk-jockeys e meu programa o que se chama hoje de maior jazz. Com uma vassoura velha de microfone eu mandava para o ar os grandes sucessos o Hit Parade da discoteca do meu pai. Mantovani, Percy Faith, Chuck Berry, Teddy Reno, Carlos Gardel, Sammy Davis Jr, Dean Martin, Angela Maria, Dorival Caymmi, Rosemary Clooney… O primeiro lugar vinha sendo dia-dia disputado pelo Frankie Layne, com Jezebel e Black Gold, pelo Roy Hamilton, com Ebb Tide e Unchained Melody, e pelos Diamonds com Little Darling, o estouro do ano.

“Oh little darling

Tchup tchu-ara

Tchup tchu-ara

Oh little darling

Oh oh oh oh”

A versão em português foi gravada pela Lana Bittencourt e tambem estourou, mas, do lado B, vinha uma canção pelo ar,

Se Todos Fossem Iguais a Você, de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, que ficou semanas no topo da parada.

E não mais que de repente veio Chega de Saudade e o disk-jockey deixou a rádio no ar, e partiu pra ser compositor.

 •

• Off-Key

Fotografou o som

com sua Rolleyflex

revelou-se a sua enorme inspiração.

• One Finger

Luiz Roberto Mello e Souza Oliveira, paulista do Leblon, músico e tomaníaco, numa visita ao Colégio Mello e Souza, no Rio de Janeiro, encontrou nos seus arquivos, o script de uma peça, representada pelos alunos.

O autor, não lembro quem era. No papel de Dr. Carrapatoso, o garoto Antonio Carlos Jobim. Aquele um.

• Meditação

Antonio

Carlos

Brasileiro

de

Almeida

Jobim

Antonio Carlos Planetário de Almeida Jobim

Tom Mixer.

 Outras notas, mas, a base é uma só.

#1. O grande Ronaldo Bôscoli, letrista de “Lobo Bôbo”, “Barquinho”, “Saudade Fez um Samba”, “Você”, e tantas outras da Bossa Nova, por pouco não foi o letrista de um certo tema que Tom Jobim mostrou, em primeira mão, pra ele. Chegou a fazer um esboço, mas foi seu cunhado Vinícius de Moraes, quem acabou escrevendo a letra de “Garota de Ipanema”

#2. Vinícius não acertou de cara na letra da Garota e quem quiser conhecer uma tentativa (Menina que Passa) leia “Antonio Carlos Jobim, uma Biografia”, de Sérgio Cabral, Ed. Lumiar. Tem também no Cancioneiro Jobim.

#3. Ronaldo Bôscoli reinvindicava que foi ele quem apresentou o Tom a Vinicius, do Lúcio Rangel e a história do Orfeu.

#4. Tom, Bôscoli e João Gilberto fizeram 2 músicas. Uma, ninguém lembra mais, e a outra,

Só a saudade assim, faz um dia a gente saber que o amor existe, sim.

Só um dia assim, faz a gente sentir que o amor chegou ao fim…,

ficou, segundo o maestro, um plágio de “Meditação”, também dele em parceria com Newton Mendonça.

#5. Ronaldo Bôscoli foi quem escreveu os versos para a introdução recitativa do “Desafinado”: Quando eu vou cantar você não deixa…

#6. Segundo ele, nas músicas de Tom, os nomes de mulher de mulher citados explícitamente não tem nada a ver. Ana Luiza, Lígia etc… todos esses nomes são códigos. Inclusive Ângela, que ele fez para o Roberto Carlos – o qual, aliás, estupidamente, a esnobou – é linda. Miéli e eu praticamente obrigamos o Rei a cantá-la num show – e ele finalmente a cantou, entre um e outro pot-pourri de seus sucessos.

#7. Bôscoli afirma que também colaborou em Luíza com sete cores, sete mil amores.

A resposta do Tom, e a confirmação dessas dicas, vocês encontram no livro Eles e Eu – Memórias de Ronaldo Bôscoli, por Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves, Editora Nova Fronteira.

#8. A música Corcovado, pra mim, a cara da bossa nova, ia começar dum jeito nada condizente com seus estatutos anti cubo das trevas (assim, Tom chamava as antigas boites onde ele tocava correndo atrás do aluguel) e que parecia um samba canção:

Um cigarro um violão…

Quem deu o toque, e Tom aceitou, foi o mago de Juazeiro, João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, e ficou assim:

Um cantinho e um violão…

#9. Tom nasceu em 25 de janeiro – aniversário de São Paulo, Chega de Saudade, com João Gilberto estourou em São Paulo, e, no início dos anos sessenta apresentava um programa de televisão na TV Paulista, canal 5! Acredite quem quiser! O programa chamava-se O Bom Tom e eu tive a felicidade de assistir vários deles. Lembro dos programas com João Gilberto, Luís Bonfá, Ronaldo Bôscoli. Jamais vou esquecer de Vinícius, Aloysio de Oliveira e Sylvia Telles, abraçados, dançando e cantando Eu preciso de você, como se fosse um canção, com o maestro soberano ao piano.

Como o sol precisa de um poente

Eu preciso de você

Só de você

Como toda orquestra de um regente

Eu preciso de você

Só de você…

É duro aceitar que não temos sequer um fotograma de O Bom Tom. Incrível é que o programa era o segundo lugar em audiência em São Paulo, perdendo apenas para o Cirquinho do Arrelia, no canal 7!

#10. Carinhoso.

LP (ou CD) do Século

Texto postado no site Clube do Tom em janeiro de 2000

Estamos nos aproximando da virada do século e pelo jeito que as coisas caminham o espaço pro genial está totalmente preenchido, visto que proliferam eleições e coleções dos melhores de tudo, em tudo que é assunto, e com um ano de antecedência.

É de se supor que ninguém mais acredita caber mais alguém nessa nau dos imortais que partiu (pra mim faz tempo), sabe-se lá para onde…

Nesta hipotenusa mental, como diria o grande Cyro Monteiro, já que estamos fechados para balanço, apresento o meu voto, que ninguém perguntou, diga-se, para o melhor CD ou LP deste século de musica popular:

Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim

Beleza, charme, técnica, afinação, repertório, execução, balanço, mixagem, sonoridade, harmonia, timbrística, delicadeza, discrição, amor pelo trabalho, profissionalismo, coração. Bossa.

O maior cantor de todos os tempos e o maior compositor da música popular.

Um telefonema, do próprio Frank, pro Bar Veloso, deu o chute inicial.

As gravações, com os belíssimos arranjos de Claus Ogerman, iniciaram dia 30 de janeiro de 1967 as 20 horas.

A formação da orquestra era de 10 violinos, 4 violas, 4 cellos, 3 flautas, trombone, contrabaixo, piano e 2 bateristas, um para as músicas americanas, e o Dom Um Romão para as brasileiras, que atendeu, a um pungente pedido do Tom : – Se você não vier, vou entrar por um cano que não tem tamanho!

É lógico que tinha violão, o violãozinho que o Astênio Claustro Fobim dizia não tocar bem, mas que era o mais bem colocado, mais suingado, preenchendo os espaços com elegância, sem malabarismos, o mais bonito de toda Bossa Nova.

(João Gilberto é outro assunto).

E os contracantos geniais, as “inner voices” que o nosso Maestro fazia magistralmente.

Ouçam o CD, que foi remixado, com mais algumas intervenções geniais, que não aparecem no LP. Por exemplo, a “baixaria “ que o Tom faz em I Concentrate on You enquanto o Frank está cantando, o final de Garota de Ipanema (aliás a melhor gravação desta), e outras mais.

A primeira música gravada foi Baubles, Bangles and Beads. Sinatra não gostou: – Preciso botar menos gelo nos meus drinques!

Mandaram o Tom cantar mais alto. Sinatra aconselhou :

– Abra o paletó, mostre o colete à prova de balas e cante.

Mataram às 20h e 45m, no setimo take.

A primeira música do Tom que o Frank gravou foi Dindi, que terminou lá pelas 23 horas com o comentário do “The Voice” :

– Porra, que beleza de canção!

Sinatra brincou com Ogerman e Tom sobre a delicadeza e suavidade dos arranjos : – Não canto assim desde que tive faringite !

Foram três noites de gravação, jantares e drinques, e o resultado foi eleito pela crítica americana como o àlbum do ano.

Para mim esses dois batutas produziram o tal biscoito fino, o melhor do século!

Quem quiser que mostre outro.

Como diria o sublime Baden Powell: – Encosta pra ver se dá!

O homem cordial e bondoso.

• E voltei pra minha nota

#10. Um dia, papeando com o maestro soberano contei a ele que minha mãe se formou em piano no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, onde foi aluna de Mário de Andrade, em História da Música; ele abriu um sorriso e disse:- Que bom, Edgard, os paulistas são formidáveis e os Andrades (Oswald e Mário) são dois craques!

Aproveitei a chance, e brincando, falei, que ele estava devendo uma musica para São Paulo, afinal ele nasceu no dia 25 de janeiro. Ele disse que estava fazendo; aqui está ela:

#11. Apostaria todas minhas colcheias que o Prelúdio Nº3, para violão, de Heitor Villa-Lobos, foi motivo de inspiração para a maravilha que é Saudades do Brasil.

#12. O trisavô paterno do compositor, José Martins da Cruz Jobim, era natural de Jovim, Gondomar, Portugal. O sobrenome Jobim alude a essa localidade. Atão, ora pois: será que aí não tem a troca “B” pelo “V” e bice bersa, ó pá?

Viva o nosso Tom!

 Rei, que nem Pelé!

 Tom brasileiro!

Chico Alves. Adeus no Largo da Concórdia.

quarta-feira, agosto 19th, 2015

Nasci em 1946, na rua São Leopoldo num tempo em que gente nascia em casa. No bairro do Belém em São Paulo. A poucos metros da cancela dos trens indovindos da Estação Roosevelt. A casinha azul e branca ainda está lá. Os apitos das fábricas não. Nem o armazen do seu Vicente. Nem a algazarra dos operários batendo bola de meia na cancha de paralelepípedos da rua Cajuru, onde meu pai trabalhava na fábrica de tintas CIL que protegiam o Brasil, dos tios João e Américo Marques da Costa. Minha mãe era formada em piano pelo Conservatório Dramático Musical de São Paulo, aluna de Mário de Andrade em  História da Música. Noturnos e valsas de Chopin, chorinhos sapécas de Nazareth. E Tico-tico no fubá, partitura comprada do próprio Zequinha de Abreu. Novelas na rádio América. Comícios no Largo do Belém. Rojões e marchinhas. Presidente Getúlio, Adhemar senador, e Lucas Garcez pra governador – é PTB, é PSP,  juntinhos unidos iremos vencer!  Hugo Borghi levou meu voto infante mas, não a governança da Terra da Garoa – naqueles idos São Paulo garoava… Ugobógui… foi meu primeiro revés político.

Meu pai jogando sueca na sala com seu Vicente, e eis que de repente surge na janela um ladrão de máscara vermelha, na verdade um lenço portando uma…faca. Berros. Assaltante mascarado, sozinho, anunciando-se pela janela, de faca, que tempos!

Depois, Rua Herval. Um prédio, lembrando que prédio é uma coisa, edifício é outra. Primeiro andar, em cima da massa do pastifício do seu Rômulo. De lá lembro só do papai Noël sorrateiro, um trem elétrico Leonel e uma inveja do Nando, meu irmão Luiz Fernando querido, pai dos meus jingles de campanhas publicitárias. Explico. Nando foi o criador da primeira campanha na qual participei ativamente: Seu guarda chuvas tem asas. Cumprindo o briefing, saltamos do  primeiro andar abrimos o guarda chuva e aterrisamos no target, os fundos do seu Rômulo e o recall não foi dos melhores.
 Fratura de clavícula. Almoço de domingo, depois da missa e jornaleiro. Gíbís e palavras cruzadas. Diogo meu pai, minha mãe Antonietta, Nando e eu. Cantina Balila, rua do Gazômetro. Comida boa, farta, garçons amigos, o porteiro mudo, querido Ama Ama, nos recebendo festivamente fardado, um general da Atlântida. Quase em frente, a Fábrica de Balas A Americana, das Balas Futebol, da febre das figurinhas. Felicidade era trocar um album completo, com  Futebolino e tudo, por um licoreiro.

Ás vezes, almoçavamos no apartamento dos meus avós maternos, vigésimo andar do prédio onde ficava o Cine Piratininga, O Maior Cinema do Brasil, na avenida Rangel Pestana, quase em frente a igreja do Senhor Bom Jesus do Brás, pegado ao largo da Concórdia. Vô Antonietta, italiana de Salerno, e vô Luiz Burza, argentino de Rosário, dono da Cartonagem Burza, rua Martim Burchard, ali perto. Nhoque. Saudade. Revistas das minhas tias Odette e Ivone e meu tio Luizinho. O Cruzeiro, vinha de Amigo da Onça, do Pif Paf de Vão Gôgo (Millor Fernandes), de aulas de jiu jitsu ministradas por Hélio Gracie, precursor do vale tudo, hoje o MMA e reportagens sensacionalistas sobre discos voadores. Até hoje espero ansiosamente suas visitas. E Seleções Readers Digest, onde enriqueci o vocabulário com Aurélio Buarque de Holanda e o repertório humorístico com as Piadas de Caserna. Vitrola, Caixinha de agulhas. LPs ainda não. Tangos.

…era, para mi la vida entera,
 como un sol de primavera
 mi esperanza y mi pasión,
 sabía que en el mundo no cabía
 toda la humilde alegría
 de mi pobre corazón…

Era um sábado, e Francisco Alves, o Rei da Voz (novamente a história conta),  que fora contratado pela Rádio Nacional de São Paulo para uma série de shows em praças públicas da capital paulista, realizou a primeira das apresentações no largo da Concórdia no bairro do Brás. Do apartamento de meus avós eu vi a multidão ouvindo O Chico Viola. Lembro dele cantando a Canção da criança, cuja renda, diz tambem a história, era destinada as crianças da Casa de Lazaro, que cuidava de crianças pobres:

Criança feliz, que vive a cantar. Alegre a embalar seu sonho infantil. Oh, meu bom Jesus que a todos conduz, olhai as crianças do nosso Brasil.

Daqui para frente é o que aprendi depois.
 Chico, que não gostava de viajar de avião, estava com uma certa pressa de chegar ao Rio, a fim de se apresentar descansado em seu programa na Rádio Nacional, domingo ao meio-dia, sempre anunciado pomposamente pela locutora Lúcia Helena: “Ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia…”. Foi de carona com o violonista Rago até o centro da cidade, pegou seu Buick preto ano 1951 e rumou para o Rio de Janeiro pela via Dutra, recentemente inaugurada.  Rago conta que tentou convencer o cantor a não viajar para o Rio, pois havia um novo show marcado em São Paulo dois dias depois, mas, de acordo com o violonista, Chico Alves era teimoso, e partiu para nunca mais voltar. Na altura de Pindamonhangaba, numa curva, bateu de frente a um caminhão que invadiu a contra mão. Acabou ali a vida do rei da voz.

Dormi no apartamento dos meus avós e jamais vou esquecer da manhã, da gritaria no prédio: Chico Viola morreu!

E da música que tocou no rádio, que me deixou intrigado com a frase que dizia …quanto mais ponho bebida, mas a sombra colorida, aparece em meu olhar…

Hoje eu sei que a letra é do grande Orestes Barbosa e a melodia de A mulher que ficou na taça é de Francisco Alves.

E que sombra colorida não existe. Ou existe?

Chico Alves

A  ilustração acima é do meu querido e saudoso amigo Miécio Caffé que chegou a desenhar para as Balas Americana. Mas não é o autor do Futebolino (o menino símbolo das Balas Futebol).

 

Album se figurinhas e o Futebolino

Album de figurinhas e o Futebolino

Futebolino, com ilustração de Miécio Caffé

Futebolino, com ilustração de Miécio Caffé

CIL • Companhia Industrial Limitada

Tintas CIL protegem o Brasil

Meu pai. Batia um bolão.

 

Carteirinha da Cil F.C.

 

O maior do Brasil

O maior do Brasil

Francisco Alves

Herivelto Martins e David Nasser

Até a lua do Rio,
No céu tranquilo e vazio,
Não inspira mais amor;
O violão desafina
Porque chora em cada esquina
A falta do seu cantor.
Escravo da melodia,
Ele cantando escrevia
O que na alma brotava;
Subindo os degraus da glória,
Ele escreveu a história
Da cidade que adorava.
O Rio foi o seu berço,
O violão foi o terço,
O samba sua oração;
Sambista de um mundo novo,
Da alma simples de um povo
Que samba de pé no chão.
Velho Chico tu recordas
Um violão, cujas cordas
A mão de Deus rebentou;
Porque está faltando agora
A lágrima que o samba chora
Na voz que a chama apagou.

Mais um pouco de Chico Alves:

Foi ela

 Boa noite amor

 Cadeira vazia

Quem há de dizer

Serra da boa esperança

Onde o céu é mais azul

Trecho do último show ao vivo de Francisco Alves no Largo da Concórdia (audio)

Francisco Alves, o rei da Voz – Parte I. Especial da TV Cultura. Cenas de Chico Alves, Carmem Costa, João Dias

 

Francisco Alves, o rei da Voz – Parte Final. Cenas do povo nas ruas, no dia do enterro de Chico. Depoimentos de João Dias e Elis Regina

Francisco de Morais Alves (19 de agosto de 1898 — 27 de setembro de 1952)