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Viva Antonio Carlos Jobim!

segunda-feira, janeiro 25th, 2021

Viva Tom Jobim!

25 de janeiro. Aniversário de São Paulo, e do maior compositor de música popular de todos os tempos! Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim!

Semibreves

• Wave

Era o tempo dos radinhos Spika, e dos primeiros disk-jockeys; eu era um.  Com uma vassoura velha como microfone, ia mandando para o ar o Hit Parade da discoteca do meu pai. Grandes sucessos . Mantovani, Percy Faith, Chuck Berry, Teddy Reno, Carlos Gardel, Sammy Davis Jr, Dean Martin, Angela Maria, Dorival Caymmi, Rosemary Clooney… O primeiro lugar vinha sendo dia-dia disputado pelo Frankie Layne, com Jezebel e Black Gold, pelo Roy Hamilton, com Ebb Tide e Unchained Melody, e pelos Diamonds com Little Darling, o estouro do ano.

“Oh little darling

Tchup tchu-ara

Tchup tchu-ara

Oh little darling

Oh oh oh oh”

A versão em português foi gravada por Lana Bittencourt e também estourou, mas, do lado B, vinha uma canção pelo ar, uma cidade a cantar, uma mulher a cantar “Se Todos Fossem Iguais a Você”, de Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, que conquistou a audiência e ficou semanas no topo da parada. Foi a primeira vez que vi o nome dessa sublime parceria.

E, um pouco mais que de repente, chegou “Chega de Saudade”, e o disk-jockey largou a rádio no ar, e tratou de aprender violão.

 •

• Tom

Fotografou o som

com sua Rolleyflex

revelou-se a sua enorme inspiração.

• One Finger

Meu amigo e parceiro Luiz Roberto Mello e Souza Oliveira, paulista do Leblon, músico e tomaníaco, numa visita ao Colégio Mello e Souza, no Rio de Janeiro, encontrou nos seus arquivos, o script de uma peça, que foi representada pelos alunos, lá pelos anos trinta do século passada.

O autor, não sei quem era. mas, no papel de Dr. Carrapatoso, estava o garoto Antonio Carlos Jobim.

Aquele um.

• Meditação

Antonio

Carlos

Brasileiro

de

Almeida

Jobim

Antonio Carlos Planetário de Almeida Jobim

Tom Mixer.

 • Outras notas, mas, a base é uma só.

#1. O grande Ronaldo Bôscoli, letrista de “Lobo Bôbo”, “Barquinho”, “Fim de noite”, “Saudade Fez um Samba”, “Você”, e muitas outras da Bossa Nova, por pouco não foi o letrista de um tema que Tom Jobim mostrou a ele em primeira mão. Chegou a fazer um esboço, mas foi seu cunhado Vinícius de Moraes, quem acabou escrevendo a letra de “Garota de Ipanema”.

#2. Vinícius não acertou de cara na letra, e quem quiser conhecer uma tentativa (Menina que Passa),leia “Antonio Carlos Jobim, uma Biografia”, de Sérgio Cabral, Ed. Lumiar. Tem também no Cancioneiro Jobim.

#3. Ronaldo Bôscoli reinvindicava que foi ele quem apresentou o Tom a Vinicius, e não o Lúcio Rangel, na lendário Casa Villarino Bar.

#4. Tom, Bôscoli e João Gilberto fizeram 2 músicas em parceria!               Uma, ninguém lembra mais, e a outra,  

Só a saudade assim, faz um dia a gente saber que o amor existe, sim.             Só um dia assim, faz a gente sentir que o amor chegou ao fim…

ficou, segundo o maestro, um plágio de “Meditação”, também dele, em parceria com Newton Mendonça.

#5. Ronaldo Bôscoli foi quem escreveu os versos para a introdução recitativa do “Desafinado”: Quando eu vou cantar você não deixa…

#6. Segundo ele, os nomes de mulher de mulher citados nas músicas de Tom, não tem nada a ver. Ana Luiza, Lígia etc… todos esses nomes são códigos. Inclusive Ângela, que ele fez para o Roberto Carlos – o qual, aliás, estupidamente, a esnobou – é linda.                                                                         –  Miéli e eu praticamente obrigamos o Rei a cantá-la num show – e ele finalmente a cantou, entre um e outro pot-pourri de seus sucessos.

#7. Bôscoli afirma também que colaborou em Luíza com sete cores, sete mil amores.

A resposta do Tom, e a confirmação dessas dicas, vocês encontram no livro Eles e Eu – Memórias de Ronaldo Bôscoli, por Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves, Editora Nova Fronteira.

#8. A música Corcovado, pra mim, a cara da bossa nova, começava originalmente, com cara de samba canção:

                                          Um cigarro um violão….       

nada condizente com os estatutos ensolarados da BN, remetendo ao Cubo das Trevas – assim, Tom chamava as antigas boites esfumaçadas onde ele tocava seu pianinho, correndo atrás do aluguel.

Quem deu o toque, e Tom aceitou, foi o mago de Juazeiro, João Gilberto      do Prado Pereira de Oliveira, e ficou assim:

Um cantinho e um violão…

#9. Tom nasceu num dia 25 de janeiro – aniversário de São Paulo, e “Chega de Saudade”, com João Gilberto estourou em São Paulo, e, no início dos anos sessenta apresentava um programa de televisão na TV Paulista, canal 5! Acredite quem quiser! O programa chamava-se “O Bom Tom” e eu tive a felicidade de assistir vários deles. Lembro dos programas com João Gilberto, Luís Bonfá, Ronaldo Bôscoli. Jamais vou esquecer de Vinícius, Aloysio de Oliveira e Sylvia Telles abraçados, dançando e cantando “Eu preciso de você”, como se fosse um can can, com o maestro soberano ao piano.

Como o sol precisa de um poente

Eu preciso de você

Só de você

Como toda orquestra de um regente

Eu preciso de você

Só de você…

É duro aceitar que não temos sequer um fotograma de “O Bom Tom”. Incrível é que o programa era o segundo lugar em audiência em São Paulo, perdendo apenas para o Cirquinho do Arrelia, no canal 7!

#10. Carinhoso.

LP (ou CD) do Século

janeiro de 2000

Estamos nos aproximando da virada do século, e pelo jeito que as coisas caminham, o espaço pro genial está totalmente preenchido, visto que proliferam eleições e coleções dos melhores de tudo, de tudo que é assunto, e com um ano de antecedência.

É de se supor que, ninguém mais acredita caber mais alguém, nessa nau dos imortais que partiu, no oceano sem praias…

E, já que estamos fechando para balanço, apresento o meu voto, que aliás, ninguém perguntou, para o melhor CD ou LP deste século de musica popular:

Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim

Beleza, charme, técnica, afinação, repertório, execução, balanço, mixagem, sonoridade, harmonia, timbrística, delicadeza, discrição, amor pelo trabalho, profissionalismo, coração. Bossa.

O maior cantor de todos os tempos e o maior compositor da música popular.

Um telefonema, do próprio Frank, pro Bar Veloso, deu o chute inicial.

As gravações, com os belíssimos arranjos de Claus Ogerman, iniciaram dia 30 de janeiro de 1967 as 20 horas.

A formação da orquestra era de 10 violinos, 4 violas, 4 cellos, 3 flautas, trombone, contrabaixo, piano e 2 bateristas, um para as músicas americanas, e o Dom Um Romão para as brasileiras, atendendo a um pungente pedido do Tom : – Se você não vier, vou entrar por um cano que não tem tamanho!

E aquele violãozinho do Astênio Claustro Fobim  “que não tocava bem”, mas que tocava como ninguém, bem colocado, suingado, preenchendo os espaços com elegância, e sem malabarismos, o violão mais bossa nova de toda Bossa Nova.

(João Gilberto é outro assunto).

Contracantos geniais, as chamadas  “inner voices”, que o nosso Maestro fazia magistralmente.

O CD, remixado, contem algumas intervenções geniais, que não aparecem no LP. Por exemplo, a “baixaria “ que o Tom faz em “I Concentrate on You” enquanto o Frank está cantando, o final de “Garota de Ipanema” (aliás a melhor gravação desta música, (São João que me perdoe) e outras mais.

A primeira música gravada foi “Baubles, Bangles and Beads”. Sinatra não gostou: – Preciso botar menos gelo nos meus drinques!

Mandaram o Tom cantar mais alto. Sinatra aconselhou :

– Abra o paletó, mostre o colete à prova de balas e cante.

Mataram às 20h e 45m, no setimo take.

A primeira música de Tom Jobim que o Frank gravou foi Dindi, que terminou lá pelas 23 horas com o comentário do “The Voice” :

– Porra, que beleza de canção!

Sinatra brincou com Ogerman e Tom sobre a delicadeza e a suavidade dos arranjos : – Não canto assim desde que tive faringite !

Foram três noites de gravação, jantares e drinques, e o resultado foi eleito pela crítica americana como o àlbum do ano.

Para mim esses dois batutas produziram o tal biscoito fino, o melhor do século!

Quem quiser que mostre outro.

Como diria o nosso Baden Powell: – Encosta pra ver se dá!

O homem cordial e bondoso.

• E voltei pra minha nota

#10. Um dia, papeando com o maestro soberano, contei a ele que minha mãe se formou em piano no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, onde foi aluna de Mário de Andrade, em História da Música; ele abriu um sorriso e com seu jeito cordial disse:- Que bom, Edgard, os paulistas são formidáveis e os Andrades (Oswald e Mário) são dois craques!

Brincando, aproveitei a chance e falei, que ele estava devendo uma musica para São Paulo, afinal ele nasceu no dia 25 de janeiro, e ele disse que estava fazendo. Aqui está ela:

#11. Apostaria minhas colcheias que o “Prelúdio Nº3”, para violão, de Heitor Villa-Lobos, foi motivo de inspiração para a maravilha que é “Saudades do Brasil”.

#12. O trisavô paterno do compositor, José Martins da Cruz Jobim, era natural de Jovim, Gondomar, Portugal. O sobrenome Jobim alude a essa localidade.

Ora pois: será que aí não houve a troca “B” pelo “V” e bice bersa, ó pá?

Viva o nosso Tom!

 Rei, que nem Pelé!

 Tom brasileiro!

Chico Alves. Adeus no Largo da Concórdia.

quarta-feira, agosto 19th, 2015

Nasci em 1946, na rua São Leopoldo num tempo em que gente nascia em casa. No bairro do Belém em São Paulo. A poucos metros da cancela dos trens indovindos da Estação Roosevelt. A casinha azul e branca ainda está lá. Os apitos das fábricas não. Nem o armazen do seu Vicente. Nem a algazarra dos operários batendo bola de meia na cancha de paralelepípedos da rua Cajuru, onde meu pai trabalhava na fábrica de tintas CIL que protegiam o Brasil, dos tios João e Américo Marques da Costa. Minha mãe era formada em piano pelo Conservatório Dramático Musical de São Paulo, aluna de Mário de Andrade em  História da Música. Noturnos e valsas de Chopin, chorinhos sapécas de Nazareth. E Tico-tico no fubá, partitura comprada do próprio Zequinha de Abreu. Novelas na rádio América. Comícios no Largo do Belém. Rojões e marchinhas. Presidente Getúlio, Adhemar senador, e Lucas Garcez pra governador – é PTB, é PSP,  juntinhos unidos iremos vencer!  Hugo Borghi levou meu voto infante mas, não a governança da Terra da Garoa – naqueles idos São Paulo garoava… Ugobógui… foi meu primeiro revés político.

Meu pai jogando sueca na sala com seu Vicente, e eis que de repente surge na janela um ladrão de máscara vermelha, na verdade um lenço portando uma…faca. Berros. Assaltante mascarado, sozinho, anunciando-se pela janela, de faca, que tempos!

Depois, Rua Herval. Um prédio, lembrando que prédio é uma coisa, edifício é outra. Primeiro andar, em cima da massa do pastifício do seu Rômulo. De lá lembro só do papai Noël sorrateiro, um trem elétrico Leonel e uma inveja do Nando, meu irmão Luiz Fernando querido, pai dos meus jingles de campanhas publicitárias. Explico. Nando foi o criador da primeira campanha na qual participei ativamente: Seu guarda chuvas tem asas. Cumprindo o briefing, saltamos do  primeiro andar abrimos o guarda chuva e aterrisamos no target, os fundos do seu Rômulo e o recall não foi dos melhores.
 Fratura de clavícula. Almoço de domingo, depois da missa e jornaleiro. Gíbís e palavras cruzadas. Diogo meu pai, minha mãe Antonietta, Nando e eu. Cantina Balila, rua do Gazômetro. Comida boa, farta, garçons amigos, o porteiro mudo, querido Ama Ama, nos recebendo festivamente fardado, um general da Atlântida. Quase em frente, a Fábrica de Balas A Americana, das Balas Futebol, da febre das figurinhas. Felicidade era trocar um album completo, com  Futebolino e tudo, por um licoreiro.

Ás vezes, almoçavamos no apartamento dos meus avós maternos, vigésimo andar do prédio onde ficava o Cine Piratininga, O Maior Cinema do Brasil, na avenida Rangel Pestana, quase em frente a igreja do Senhor Bom Jesus do Brás, pegado ao largo da Concórdia. Vô Antonietta, italiana de Salerno, e vô Luiz Burza, argentino de Rosário, dono da Cartonagem Burza, rua Martim Burchard, ali perto. Nhoque. Saudade. Revistas das minhas tias Odette e Ivone e meu tio Luizinho. O Cruzeiro, vinha de Amigo da Onça, do Pif Paf de Vão Gôgo (Millor Fernandes), de aulas de jiu jitsu ministradas por Hélio Gracie, precursor do vale tudo, hoje o MMA e reportagens sensacionalistas sobre discos voadores. Até hoje espero ansiosamente suas visitas. E Seleções Readers Digest, onde enriqueci o vocabulário com Aurélio Buarque de Holanda e o repertório humorístico com as Piadas de Caserna. Vitrola, Caixinha de agulhas. LPs ainda não. Tangos.

…era, para mi la vida entera,
 como un sol de primavera
 mi esperanza y mi pasión,
 sabía que en el mundo no cabía
 toda la humilde alegría
 de mi pobre corazón…

Era um sábado, e Francisco Alves, o Rei da Voz (novamente a história conta),  que fora contratado pela Rádio Nacional de São Paulo para uma série de shows em praças públicas da capital paulista, realizou a primeira das apresentações no largo da Concórdia no bairro do Brás. Do apartamento de meus avós eu vi a multidão ouvindo O Chico Viola. Lembro dele cantando a Canção da criança, cuja renda, diz tambem a história, era destinada as crianças da Casa de Lazaro, que cuidava de crianças pobres:

Criança feliz, que vive a cantar. Alegre a embalar seu sonho infantil. Oh, meu bom Jesus que a todos conduz, olhai as crianças do nosso Brasil.

Daqui para frente é o que aprendi depois.
 Chico, que não gostava de viajar de avião, estava com uma certa pressa de chegar ao Rio, a fim de se apresentar descansado em seu programa na Rádio Nacional, domingo ao meio-dia, sempre anunciado pomposamente pela locutora Lúcia Helena: “Ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia…”. Foi de carona com o violonista Rago até o centro da cidade, pegou seu Buick preto ano 1951 e rumou para o Rio de Janeiro pela via Dutra, recentemente inaugurada.  Rago conta que tentou convencer o cantor a não viajar para o Rio, pois havia um novo show marcado em São Paulo dois dias depois, mas, de acordo com o violonista, Chico Alves era teimoso, e partiu para nunca mais voltar. Na altura de Pindamonhangaba, numa curva, bateu de frente a um caminhão que invadiu a contra mão. Acabou ali a vida do rei da voz.

Dormi no apartamento dos meus avós e jamais vou esquecer da manhã, da gritaria no prédio: Chico Viola morreu!

E da música que tocou no rádio, que me deixou intrigado com a frase que dizia …quanto mais ponho bebida, mas a sombra colorida, aparece em meu olhar…

Hoje eu sei que a letra é do grande Orestes Barbosa e a melodia de A mulher que ficou na taça é de Francisco Alves.

E que sombra colorida não existe. Ou existe?

Chico Alves

A  ilustração acima é do meu querido e saudoso amigo Miécio Caffé que chegou a desenhar para as Balas Americana. Mas não é o autor do Futebolino (o menino símbolo das Balas Futebol).

 

Album se figurinhas e o Futebolino

Album de figurinhas e o Futebolino

Futebolino, com ilustração de Miécio Caffé

Futebolino, com ilustração de Miécio Caffé

CIL • Companhia Industrial Limitada

Tintas CIL protegem o Brasil

Meu pai. Batia um bolão.

 

Carteirinha da Cil F.C.

 

O maior do Brasil

O maior do Brasil

Francisco Alves

Herivelto Martins e David Nasser

Até a lua do Rio,
No céu tranquilo e vazio,
Não inspira mais amor;
O violão desafina
Porque chora em cada esquina
A falta do seu cantor.
Escravo da melodia,
Ele cantando escrevia
O que na alma brotava;
Subindo os degraus da glória,
Ele escreveu a história
Da cidade que adorava.
O Rio foi o seu berço,
O violão foi o terço,
O samba sua oração;
Sambista de um mundo novo,
Da alma simples de um povo
Que samba de pé no chão.
Velho Chico tu recordas
Um violão, cujas cordas
A mão de Deus rebentou;
Porque está faltando agora
A lágrima que o samba chora
Na voz que a chama apagou.

Mais um pouco de Chico Alves:

Foi ela

 Boa noite amor

 Cadeira vazia

Quem há de dizer

Serra da boa esperança

Onde o céu é mais azul

Trecho do último show ao vivo de Francisco Alves no Largo da Concórdia (audio)

Francisco Alves, o rei da Voz – Parte I. Especial da TV Cultura. Cenas de Chico Alves, Carmem Costa, João Dias

 

Francisco Alves, o rei da Voz – Parte Final. Cenas do povo nas ruas, no dia do enterro de Chico. Depoimentos de João Dias e Elis Regina

Francisco de Morais Alves (19 de agosto de 1898 — 27 de setembro de 1952)