Billie Holiday. Lady in Satin.

Terminei de ler a ótima biografia de Billie Holiday, por Sylvia Fol, comovido pela história trágica dessa cantora genial e engasgado com este trecho, quase ao final do livro:

… com a voz enfraquecida (de Billie) sobre um leito de violinos xaroposos. Alguns dirão que esse disco é um erro colossal. Onze novas canções, que ela tem a maior difilculdade para interpretar, com uma voz empastada pelo abuso do gim. Escutar esse disco é doloroso. Os arranjos floridos e os acordes luxuriantes contribuem para acentuar a fragilidade de sua voz. Sua falta de confiança em si mesma é manisfesta.…

Ray Ellis – o arranjador – sairá completamente abalado dessa experiência. Ele se recusará a assumir a mixagem. E quando Townsend – Irving, o produtor da gravadora Columbia – lhe envia o disco terminado, ele será atingido de imediato por sua infinita tristeza.

O erro colossal é o LP, agora em CD, Lady in Satin, de Billie Holiday, justamente um dos discos mais lindos que ouvi, que muitas vezes me fez  chorar de emoção e encantamento. Me vejo na cabine da antiga Eletroarte, na rua Augusta em São Paulo, ouvindo desconfiado que havia morrido e já estava no céu.
Arranjos floridos (?) e acordes luxuriantes (?),  falta de confiança em si mesma (?) e dificuldade de interpretar? 
Lady in Satin é um enlevo colossal.

You’ve Changed

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P.S.: Capa do album 78 rpm autografado pela divina Lady Day.

                                                

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10 Responses to “Billie Holiday. Lady in Satin.”

  1. Heloisa Eugenia disse:

    Acabei de ouvir novamente esta faixa. Eu concordo com você. Acho demais!!!! Talvez se pareça como uma espécie de despedida! E o tom me lembra Amt!

  2. Zeca Assumpção disse:

    Deguinha,

    Se isso é um erro colossal, me diga o que é um acerto colossal?
    O Quiet Nights do Guil e Miles também foi considerado um erro.
    Tem gente que não está ouvindo nada. Aliás muita gente.
    Não pode haver erro com a Billie. Ela não conseguiria errar.
    Adorei a lembrança da Eletroarte. La ouvi o Bill Evans pela primeira vez. Que mágica!!!

  3. Edgard Poças disse:

    Pois é Sunça. O primeiro LP do João Gilberto tambem foi considerado um equívoco melódico, harmônico, desafinado e até sexual, pela maioria dos famigerados disk jockeys cuja presença sempre foi uma imensa lacuna e o Joåzinho está aí firme na história da musica com o Miles e a Lady in Satin.
    Lembra do Toninho da Eletroarte? – o atendente que sabia quem eram os Hi-Los – foi ele que numa ocasião trouxe uma pilha de LPs para ouvir na cabine e o resultado foi que eu saí da loja, mais desconstruido que um quadro cubista, querendo atravessar a rua Augusta a cento e vinte por hora em Criss Cros, com um disco voador na mão pilotado pelo Thelonious Monk. O único cara que, além da tia Josefina, sabe tudo sobre patavina.Thelonious Sphere Monk. O metamúsico. O monge esfera.
    É pois, Sunça, isso mais o abraço Straight No Chaser do Edgard.

  4. Andrew disse:

    Mestre Edgar,você poderia me passar seu e mail para contato,gostaria de compartilhar um projeto com você.
    Abraço

  5. josé disse:

    Ao fazer uma pesquisa fiquei de boca aberta ao descobrir que um Sr. Edgard Poças é filho de um Sr. de Santiago Melres Portugal . Não sei se nasceu cá ,mas eu vejo todos os dias a casa onde viveu o pai . Gostaria de enviar umas fotos mas preciso do mail . Obrigado . Meu endereço josemanuel.viana@gmail.com

  6. Anthony disse:

    Sou um grande fã e admirador de Billie Holiday.
    Li essa biografia e também não concordei muito com tal trecho.
    Pra mim Lady in Satin é um dos maiores trabalhos interpretativos já feitos por ela.
    As diferenças na voz são claras, porém o fraseado, vibrato e a interpretação eximia são sublimes.
    Pegando suas gravações de 1950 até o fim, é uma verdadeira lição de vida, a forma ímpar de cantar o que viveu.
    Como disse Anie Ross, “as pessoas a ouvem e dizem, ahh que voz.
    Não pra mim, há uma vida inteira nessa voz”

  7. Waldir Albieri disse:

    Amigo Edgard…
    Billie de há muito tempo faz a minha cabeça. Tenho ouvido e lido muito sobre ela. Mas uma de suas canções tem o condão de remeter ao infinito quando ouço. NATURE BOY é de uma delicadeza ímpar. Sua voz parece uma lamento daquelas carpideiras nordestinas, externando seus lamentos à beira da lápide. Parabéns pela menção da cantora “the best” do jazz. Abraços

  8. Edgard Poças disse:

    Caro Waldir É sempre bom saber que voce está presente!
    O LP/CD Lady in Satin é um dos meus dez mais de todos os tempos.
    Abraço de sempre.
    edgard

  9. Billie é parte integrante da minha rotina diária. Ouço sua voz, e me emociono, diariamente no carro, a caminho do trabalho. Em casa, me fecho no escritório, apago as luzes e rezo ouvindo suas canções. Sua voz, emitida nas profundezas de seu corpo combalido pelas drogas, soa como um arauto que me convida a reflexão. Reitero os meus parabéns ao amigo pela sua disposição de manter viva suas lembranças.

  10. Edgard Poças disse:

    É isso aí, meu caro amigo! Lady in Satin!

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